Artigo – Trânsito e politicalha por Jessé Souza


Data: 07/10/2010
Jessé Souza *

O que tem a ver a vergonhosa realidade de acidentes de trânsito em Roraima com a campanha eleitoral? Aparentemente, nada. Porém, a verdade é que trânsito e campanha eleitoral são duas realidades que se cruzam e fazem tanto mal à sociedade roraimense.

A começar pelas ações repressivas. Quando chega período eleitoral, simplesmente desaparecem as blitze de trânsito. As autuações também caem drasticamente. E não quero nem especular que possa estar havendo, também, por debaixo dos panos, perdão de multas. Aí seria mais que absurdo.

Para não tomar medidas antipáticas, os governos aliviam nas multas e desmobilizam ações repressivas. Enquanto técnicos e bons profissionais são colocados de escanteio, os condutores imprudentes ficam livres para continuar a provocar acidentes, matar pessoas e deixar centenas sequelados e/ou inválidos.

Outro ponto que pôde ser observado inclusive nessa campanha do primeiro turno: candidatos flagrados com esquema de Carteira Nacional de Habilitação. De que forma essas CNHs seriam liberadas? Haveria algum esquema grande? Ou essa de trocar CNH por votos seria apenas uma (mais uma) engabelação ao eleitor?

Não é de hoje que nos bastidores políticos se comenta sobre uma suposta indústria de votos por meio de concessão de CNH. Isso significa fortes indícios não apenas de crime eleitoral, mas outros crimes que põem habilitação nas mãos de uma pessoa inabilitada para matar no trânsito.

Outro fato flagrante é a entrega do órgão de trânsito nas mãos de aliados políticos, o que significa dizer que uma estatal estaria sendo partidarizada, transformada numa política da acomodação política, em prejuízo à sociedade, que se vê atemorizada pela onda de mortes no trânsito.

Não canso de repetir que o Estado de Roraima tem uma população do tamanho de um bairro de uma metrópole, mas as autoridades locais não conseguem administrar para o Estado se tornar exemplo em tudo, inclusive no trânsito.

Nossa engenharia de trânsito é um arremedo, a qualidade das vias públicas é vergonhosa, as sinalizações uma precariedade e as ações repressivas aliadas com tecnologia são um sonho muito distante.

Em resumo, o trânsito está caótico por vários: porque o órgão é partidarizado, porque freiam-se as ações repressivas para não melindrar o eleitor, porque não há interesse em combater os infratores com tecnologia e inteligência (pois o dinheiro é mal aplicado ou desviado sabe-se lá para onde) e por incompetência também.

Enquanto não se profissionalizar o Detran, deixá-lo de fora de acomodações partidárias e investir pesado para combater infratores e educar de verdade as pessoas desde a infância, continuaremos a ver nos noticiários policiais as famílias ficando órfãs por causa de acidentes de trânsito. E um batalhão de gente inválida e doente , além de altas somas de recursos destinadas para atender feridos, salvar vidas e tratar os sequelados.

* Jornalista do Jornal Folha de Boa Vista

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